Arquivo de Maio de 2009
CHEIRO FORTE
Chama-se Wheelling: pilotos empinam, colocam mais gente pendurada na moto e um monte de outras coisas. Em cima do caminhão de som eu e minha banda da época, metade inicial dos anos 90, prontos pra tocar a partir do momento em que o primeiro motoqueiro entrasse na pista. Muita gente no parque de exposições de Presidente Venceslau.
“I Wanna Be Sedated” seria ótimo pra começar. Veio a moto grande e quase me perdi nos quatro acordes dos Ramones. O som da placa raspando no asfalto me fez olhar pro cabo da guitarra. Apesar da corda de proteção, a massa de gente precisava se abrir, no ritmo de vagalhão, a cada aproximação do maluco em uma roda. Ele parou depois de algum vai e vem. Aplauso pra todo lado. Eu aproveitei e peguei um pouco pra mim, já que a música também tinha terminado.
De cima do caminhão vi no começo da pista outro cara grudar na parte da frente de uma CG 125. Encostou a barriga no farol, apoiou os pés nos pedais dianteiros, onde, do lado direito dele, se troca marcha e, do lado esquerdo, se aciona os freios de trás. Segurou na base do guidão. No assento da moto, o piloto acelerou e partiu com os pés nos pedais traseiros. Começamos a música, não me lembro qual.
A manobra programada era o RL, freio da frente acionado com a mão direita. O breque precisa ser suave o suficiente pra manter a roda em movimento e ao mesmo tempo incentivar a projeção do corpo. O pneu traseiro deixa o asfalto e por segundos mais lentos dá pra ver o cara grudado da frente quase tocar as costas no chão.
Só que ali, bem diante do palco, a moto não voltou pra posição normal. O da frente desgrudou, o piloto tirou a mão da embreagem pra absorver o impacto. No movimento de ponta cabeça, a rabeira da moto caiu sobre a testa já sem capacete do passageiro que escolheu o lugar errado. Sangue e cacos vermelhos do farol traseiro todos misturados, mas isso chamava menos a atenção do que a convulsão do cara ferido. A banda parou. Tiraram rápido os dois dali, o piloto com sangue só nos cotovelos. O outro direto pra ambulância.
Acho que foi involuntário: mal tinham varrido a pista pra próxima moto, o som do caminhão estourou. Foi fácil dizer pro contratante que não havia mais nenhuma condição de continuar com o rock.
2 comentários »LIMITE
Toda vez que tô no interior e digo pra alguém, assim, só meio conhecido, que tenho uma banda de rock, não é raro ouvir sugestões bizarras, como a de se apresentar “no quadro do Faustão pra novos artistas” ou coisa que o valha. Isso me remete à pergunta clássica: o que você não faria de jeito nenhum, mesmo que isso pudesse te ajudar de alguma forma?
Não tô falando de fazer sacanagem, deixa isso pra lá. O caso aqui é desses que aparecem na sua frente e você consegue julgar fácil se o envolvido é o OUTRO que topa uma aventura em terreno com iluminação global e o pastiche a quatro. “Isso não faço de jeito nenhum!”. “Que vergonha alheia!”.
É claro que o exemplo do Faustão é meio extremo, que rejeitar publicamente algumas coisas também é cálculo de marketing, mas vamos em frente.
Outro dia pensei no que já fiz pra subir num palco. Em Presidente Venceslau, dos 11 aos 15 anos, toquei com minhas bandas da época, o Little Devious e o Esfinge, em jantar de fim de ano dos funcionários do Banco do Brasil, na carroceria de caminhão promocional da loja de eletrodomésticos, em pizzaria, em churrasco de estranhos e o cacete.
Uma vez chamaram a gente pra tocar na Bandeirantes lá da região, em Presidente Prudente. Nesse dia da TV, o Roupa Nova também ia participar do programa. A produção combinou uma aparição do Little Devious no último bloco ao lado dos carecas. Mas um pouquinho antes da entrada eu avisei que não queria mais. Emburrei num canto e disse quem nem adiantava o apresentador chamar. Afinal, pensei convicto naquela hora, eu estava vestindo uma camiseta dos Ramones.
Teve uma outra vez que disse “nem vem”. Foi pro baixista da minha ex-banda de nome péssimo, o Esfinge. Ele queria porque queria que a gente tocasse na missa de domingo da Igreja que ele freqüentava. Tentei argumentar que “Smells like Teen Spirit” não tinha a ver com o Espírito Santo, mas ele bateu o pé. “Isso não faço de jeito nenhum!”, repeti. A banda acabou ali.
Lembrar disso é só engraçado. Acho que hoje sou mais “vamo aí”. Só não abro mão da camiseta dos Ramones.
2 comentários »CORAÇÃO SURDO
Se alguém me der prazer vai ser muito bem-vindo
Falo isso no ouvido, quase grito sem perceber
No quarto eu ouço um ruído acordado
Quando viro de lado, imagino o que não posso ser
Ok, você não vê nada de errado
Eu escuto calado, sem responder
Talvez se olhasse melhor no espelho
Descartava os conselhos e ia viver
Atrás do rosto cansado é só medo
De abrir mão muito cedo da estrada em que escolhi andar
No fim mesmo cego e de coração surdo
Me distraio um segundo, e o ar me obriga a respirar
Ouça AQUI
Sem comentários »AQUI TÁ A MINHA BUNDA
Vamos começar pela parte fácil: dizer por que este blog tá indo pro ar. É pra divulgar a minha banda de rock (Já ouviu? Vai lá: www.umabandachamadaportnoy.com.br).
Mas não dá pra ser monotemático. Então vou contar também algumas histórias dessa vida corrida que é trabalhar na redação de um jornal de dia e fazer música na madruga. Meu amigo Rafael Cariello compara apropriadamente essa ocupação à de “modelo e atriz”.
Um aviso ao navegante. “Nu com a Mão no Bolso e a Guitarra no Pescoço” é um blog de um cara que teve de aprender a lidar com a Internet depois dos 20 anos. Isso significa que, tirando o MySpace, onde já emplaquei um perfil da minha banda (Ainda não conhece? Vai lá: www.myspace.com/portnoyweb), sei muito pouco sobre rede de relacionamentos virtuais regados a Facebook, Orkut, Twitter, MSN etc etc etc.
Até tinha uma opinião sobre o lance de se expor na rede, colocar foto no Orkut ou compartilhar com os outros no Twitter o cocô que enfim saiu durinho. Achava que era um jeito de gente comum se colocar na posição de celebridade que adora mostrar a bunda na revista Caras.
Mas não custa aprender, né não? Ainda mais sobre um mundo que os jornais e a indústria fonográfica desconhecem completamente.
Então chega de lero-lero. Só sei agora que o bom é se jogar nessa maravilha democrática e comunicativa chamada Internet, que acaba com os intermediários distorcedores. Vamo lá, completamente pelado! Só faço questão de manter a guitarra no pescoço, porque foi ela que me trouxe até aqui.
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