Arquivo de 29 de Maio de 2009

CHEIRO FORTE

Chama-se Wheelling: pilotos empinam, colocam mais gente pendurada na moto e um monte de outras coisas. Em cima do caminhão de som eu e minha banda da época, metade inicial dos anos 90, prontos pra tocar a partir do momento em que o primeiro motoqueiro entrasse na pista. Muita gente no parque de exposições de Presidente Venceslau.

“I Wanna Be Sedated” seria ótimo pra começar. Veio a moto grande e quase me perdi nos quatro acordes dos Ramones. O som da placa raspando no asfalto me fez olhar pro cabo da guitarra. Apesar da corda de proteção, a massa de gente precisava se abrir, no ritmo de vagalhão, a cada aproximação do maluco em uma roda. Ele parou depois de algum vai e vem. Aplauso pra todo lado. Eu aproveitei e peguei um pouco pra mim, já que a música também tinha terminado.

De cima do caminhão vi no começo da pista outro cara grudar na parte da frente de uma CG 125. Encostou a barriga no farol, apoiou os pés nos pedais dianteiros, onde, do lado direito dele, se troca marcha e, do lado esquerdo, se aciona os freios de trás. Segurou na base do guidão. No assento da moto, o piloto acelerou e partiu com os pés nos pedais traseiros. Começamos a música, não me lembro qual.

A manobra programada era o RL, freio da frente acionado com a mão direita. O breque precisa ser suave o suficiente pra manter a roda em movimento e ao mesmo tempo incentivar a projeção do corpo. O pneu traseiro deixa o asfalto e por segundos mais lentos dá pra ver o cara grudado da frente quase tocar as costas no chão.

Só que ali, bem diante do palco, a moto não voltou pra posição normal. O da frente desgrudou, o piloto tirou a mão da embreagem pra absorver o impacto. No movimento de ponta cabeça, a rabeira da moto caiu sobre a testa já sem capacete do passageiro que escolheu o lugar errado. Sangue e cacos vermelhos do farol traseiro todos misturados, mas isso chamava menos a atenção do que a convulsão do cara ferido. A banda parou. Tiraram rápido os dois dali, o piloto com sangue só nos cotovelos. O outro direto pra ambulância.

Acho que foi involuntário: mal tinham varrido a pista pra próxima moto, o som do caminhão estourou. Foi fácil dizer pro contratante que não havia mais nenhuma condição de continuar com o rock.

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