Arquivo da categoria ‘Texto sem vergonha’

A TECNOLOGIA FORMATA, O MÚSICO FAZ, NESSA ORDEM

No princípio era a bolacha, e nela não cabia uma música superior a dois ou três minutos, e esse tempo era a régua da música gravada. Fizeram-se hits, únicos, embalados numa ideia de três minutos com começo, meio e fim.

Veio o LP, e era preciso ocupar o espaço, não só juntando singles em sequência. Muito prazer, álbum-cheio-de-conceito. A ideia passou a ter mais de meia hora e dois atos.

Ontem ou anteontem, o CD uniu lado A e lado B, e uma nova lógica surgiu, mais longa e contínua.

MP3, aqui está você. Espaço pra ideia não falta, mas quem tem tempo? Na democracia quantitativa do iPod cabe tudo. Raro é ver três ou mais coisas rápidas da mesma boca.

Com tanto a descobrir, há quem ouça só refrãos. Não demora e a ideia, com começo, meio e fim, não vai passar de 30 segundos.

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HISTÓRIA SEM FIM

A morte de Michael Jackson tá pra música pop mais ou menos como a queda do Muro de Berlim tá pra geopolítica. São fatos simbólicos que obrigam as pessoas a pensar diferente.
O político que ainda raciocina a partir da lógica binária capitalismo X comunismo não tem futuro. O mesmo vale pros que lidam com música e ainda acreditam no pop monárquico, com rei, rainha, a corte e seus milhões de discos vendidos.

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CAETANO ESTATAL

A primeira notícia foi: “MINISTÉRIO DA CULTURA VETA VERBA A CAETANO - Comissão que analisa projetos aspirantes ao benefício da Lei Rouanet diz que turnê do cantor, no valor de R$ 2 milhões, não precisa de incentivo; ministro deve derrubar decisão”.

A segunda foi uma entrevista de Juca Ferreira justificando a eventual liberação da grana, ops!, do incentivo pro Caetano. “Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá”, disse o bravo ministro.

As notícias acima saíram na semana passada. A Lei Rouanet, segundo o site do MinC, se propõe a “estimular a produção, a distribuição e o acesso aos produtos culturais”, incluído aí os “espetáculos musicais”, a “proteger e conservar o patrimônio histórico e artístico” e a “estimular a difusão da cultura brasileira e a diversidade regional e étnico-cultural”.
A grosso modo, o mecanismo permite que empresas escolham projetos culturais de seu interesse e coloquem ali o dinheiro que devem ao Estado em impostos. Ou seja, o meu, o seu, o nosso dinheiro. Como existe uma burocracia danada pra enquadrar um projeto na tal lei, os artistas com uma boa assessoria acabam levando vantagem sobre aqueles que não têm Floras e Paulas a serviço.
O resultado é que metade da verba captada vai para as mãos de 3% de beneficiados, a maioria deles das regiões Sul e Sudeste do país. Fica claro que parte do ínfimo orçamento da Cultura no Brasil é usada de acordo com interesses das empresas “patrocinadoras”. Em resumo, o Estado, que serve pra diminuir desigualdades, acaba aprofundando essas desigualdades e, pior, abre mão de promover uma política cultural, qualquer que seja. Há quem ache tudo isso muito justo, ok.
A Lei Rouanet está prestes a mudar. O Ministério da Cultura prepara um novo texto com duas alterações importantes. A primeira estabelece a quebra do direito autoral, a partir de um certo tempo, da obra beneficiada pela grana estatal. Ótimo. A segunda cria uma comissão com representantes de artistas, da sociedade e do governo para avaliar qual obra ou projeto receberá a grana. É aí que o bicho pega.
Alguns artistas acham que deixar a decisão de quem merece ou não a verba estatal na mão de um grupo de pessoas é mais ou menos como reeditar a censura. Já há uma comissão, essa aí que vetou a verba pro Caetano, mas ela é bem mais frouxa e não dá a palavra final, que é do ministro.

Fiquei imaginando a nova comissão discutindo se a turnê do Caetano, do CD recém-lançado “Zii e Zie”, merece ou não dinheiro do Estado. Vai aí uma provocaçãozinha pueril. Nossos personagens são o RG (representante do governo), o RS (representante da sociedade) e o RA (representante dos artistas):

RG: Vamos começar?

RS: O RA ainda não chegou…

RG: Acho que ele não vai ligar se a gente adiantar algumas coisas. Bem, “Zii e Zie’ é o nome do disco que o Caetano Veloso vai divulgar em turnê.

RS: Nome estranho…

RG: É italiano, se não me engano. Significa “tio e tia”. De cara, já acho um claro atentado à identidade nacional. Além disso, é elitista.

RS: Me parece meio educativo. Pelo menos pra mim: agora posso fazer média com meu tio-avô, o tio Totti, quando eu for visitá-lo na Mooca.

RG: Bem observado. Vamos exigir um asterisco com a tradução nos cartazes do show…

RS: Sei não…

RA: Boa tarde, gente, desculpe o atraso. Não é fácil achar um elevador vazio que suba direto até o último andar desta torre…

RG: A pergunta, meu caro, é a seguinte: você daria dois paus pro Caetano fazer shows pelo Brasil?

RA: Por que não? Esse cara é uma das bases da cultura nacional contemporânea!

RS: Mas o preço pra população não é meio alto demais? Meu tio Totti, que diz preferir dez vezes mais o Chico mas respeita as reboladas do Caetano, me falou que desistiu de ir ver o show porque o ingresso em um lugar bem meia-boca sai quase por cem mangos.

RA: Você tá sugerindo o quê? Que pra receber essa merreca do Estado vamos ter de criar cotas populares? Uma Bolsa-Caetano? Só me faltava essa! Quem é você pra estabelecer o valor de acesso a uma obra artística?

RS: Mas definir o preço do “acesso” não é a mesma coisa que definir o valor da obra…

RA: Que ultraje! Não diga besteira, meu rapaz…

RG: Olha, RA, vê se não vai me acabar de novo com a reunião gritando “censura”!

RA: Censura! Isso mesmo. Falou a palavra certa: é cen-su-ra!

RS: Mas o que é que tem a ver…

RG: Chega! Além do mais, já é horário de almoço. Vamos logo porque tô morto de fome e demora quase uma vida pra que esse maldito elevador chegue aqui em cima…

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TEORIA DA EVOLUÇÃO

Parece piada, mas o cara que tá me convencendo a criar perfis do PORTNOY no Facebook, no Orkut, no Twitter e em tudo o que é rede de relacionamentos se chama Darwin (Ribeiro)!

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ARGUMENTO

Basta gritar truco
Pra que o rato
Corra da sala*

*Peu Sousa só precisou aprender isso, além dos valores das cartas, pra virar um excelente parceiro de trucada

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CHEIRO FORTE

Chama-se Wheelling: pilotos empinam, colocam mais gente pendurada na moto e um monte de outras coisas. Em cima do caminhão de som eu e minha banda da época, metade inicial dos anos 90, prontos pra tocar a partir do momento em que o primeiro motoqueiro entrasse na pista. Muita gente no parque de exposições de Presidente Venceslau.

“I Wanna Be Sedated” seria ótimo pra começar. Veio a moto grande e quase me perdi nos quatro acordes dos Ramones. O som da placa raspando no asfalto me fez olhar pro cabo da guitarra. Apesar da corda de proteção, a massa de gente precisava se abrir, no ritmo de vagalhão, a cada aproximação do maluco em uma roda. Ele parou depois de algum vai e vem. Aplauso pra todo lado. Eu aproveitei e peguei um pouco pra mim, já que a música também tinha terminado.

De cima do caminhão vi no começo da pista outro cara grudar na parte da frente de uma CG 125. Encostou a barriga no farol, apoiou os pés nos pedais dianteiros, onde, do lado direito dele, se troca marcha e, do lado esquerdo, se aciona os freios de trás. Segurou na base do guidão. No assento da moto, o piloto acelerou e partiu com os pés nos pedais traseiros. Começamos a música, não me lembro qual.

A manobra programada era o RL, freio da frente acionado com a mão direita. O breque precisa ser suave o suficiente pra manter a roda em movimento e ao mesmo tempo incentivar a projeção do corpo. O pneu traseiro deixa o asfalto e por segundos mais lentos dá pra ver o cara grudado da frente quase tocar as costas no chão.

Só que ali, bem diante do palco, a moto não voltou pra posição normal. O da frente desgrudou, o piloto tirou a mão da embreagem pra absorver o impacto. No movimento de ponta cabeça, a rabeira da moto caiu sobre a testa já sem capacete do passageiro que escolheu o lugar errado. Sangue e cacos vermelhos do farol traseiro todos misturados, mas isso chamava menos a atenção do que a convulsão do cara ferido. A banda parou. Tiraram rápido os dois dali, o piloto com sangue só nos cotovelos. O outro direto pra ambulância.

Acho que foi involuntário: mal tinham varrido a pista pra próxima moto, o som do caminhão estourou. Foi fácil dizer pro contratante que não havia mais nenhuma condição de continuar com o rock.

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LIMITE

Toda vez que tô no interior e digo pra alguém, assim, só meio conhecido, que tenho uma banda de rock, não é raro ouvir sugestões bizarras, como a de se apresentar “no quadro do Faustão pra novos artistas” ou coisa que o valha. Isso me remete à pergunta clássica: o que você não faria de jeito nenhum, mesmo que isso pudesse te ajudar de alguma forma?

Não tô falando de fazer sacanagem, deixa isso pra lá. O caso aqui é desses que aparecem na sua frente e você consegue julgar fácil se o envolvido é o OUTRO que topa uma aventura em terreno com iluminação global e o pastiche a quatro. “Isso não faço de jeito nenhum!”. “Que vergonha alheia!”.

É claro que o exemplo do Faustão é meio extremo, que rejeitar publicamente algumas coisas também é cálculo de marketing, mas vamos em frente.

Outro dia pensei no que já fiz pra subir num palco. Em Presidente Venceslau, dos 11 aos 15 anos, toquei com minhas bandas da época, o Little Devious e o Esfinge, em jantar de fim de ano dos funcionários do Banco do Brasil, na carroceria de caminhão promocional da loja de eletrodomésticos, em pizzaria, em churrasco de estranhos e o cacete.

Uma vez chamaram a gente pra tocar na Bandeirantes lá da região, em Presidente Prudente. Nesse dia da TV, o Roupa Nova também ia participar do programa. A produção combinou uma aparição do Little Devious no último bloco ao lado dos carecas. Mas um pouquinho antes da entrada eu avisei que não queria mais. Emburrei num canto e disse quem nem adiantava o apresentador chamar. Afinal, pensei convicto naquela hora, eu estava vestindo uma camiseta dos Ramones.

Teve uma outra vez que disse “nem vem”. Foi pro baixista da minha ex-banda de nome péssimo, o Esfinge. Ele queria porque queria que a gente tocasse na missa de domingo da Igreja que ele freqüentava. Tentei argumentar que “Smells like Teen Spirit” não tinha a ver com o Espírito Santo, mas ele bateu o pé. “Isso não faço de jeito nenhum!”, repeti. A banda acabou ali.

Lembrar disso é só engraçado. Acho que hoje sou mais “vamo aí”. Só não abro mão da camiseta dos Ramones.

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AQUI TÁ A MINHA BUNDA

Vamos começar pela parte fácil: dizer por que este blog tá indo pro ar. É pra divulgar a minha banda de rock (Já ouviu? Vai lá: www.umabandachamadaportnoy.com.br).

Mas não dá pra ser monotemático. Então vou contar também algumas histórias dessa vida corrida que é trabalhar na redação de um jornal de dia e fazer música na madruga. Meu amigo Rafael Cariello compara apropriadamente essa ocupação à de “modelo e atriz”.

Um aviso ao navegante. “Nu com a Mão no Bolso e a Guitarra no Pescoço” é um blog de um cara que teve de aprender a lidar com a Internet depois dos 20 anos. Isso significa que, tirando o MySpace, onde já emplaquei um perfil da minha banda (Ainda não conhece? Vai lá: www.myspace.com/portnoyweb), sei muito pouco sobre rede de relacionamentos virtuais regados a Facebook, Orkut, Twitter, MSN etc etc etc.

Até tinha uma opinião sobre o lance de se expor na rede, colocar foto no Orkut ou compartilhar com os outros no Twitter o cocô que enfim saiu durinho. Achava que era um jeito de gente comum se colocar na posição de celebridade que adora mostrar a bunda na revista Caras.

Mas não custa aprender, né não? Ainda mais sobre um mundo que os jornais e a indústria fonográfica desconhecem completamente.

Então chega de lero-lero. Só sei agora que o bom é se jogar nessa maravilha democrática e comunicativa chamada Internet, que acaba com os intermediários distorcedores. Vamo lá, completamente pelado! Só faço questão de manter a guitarra no pescoço, porque foi ela que me trouxe até aqui.

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